Como se organizar para escrever em casa
Um guia para quem cria literatura entre uma louça e o trabalho CLT.
Escrever em casa é tipo montar um look sem espelho — você meio que vai no feeling, ajusta aqui, desmancha ali, até que de repente está pronto. Ou quase. Porque, convenhamos, nunca está 100% pronto quando você é artista. Mas dá pra fazer funcionar. E dá pra fazer bem, juro de dedinho.
Se você, como eu, vive entre versos que brotam logo cedo e a necessidade de pagar boleto (é difícil pagar aluguel com poesia, infelizmente), sabe que organização não é luxo, é sobrevivência criativa. Então bora falar de como estruturar o caos sem matar a magia.
Crie um canto que seja seu território poético
Não precisa ser um escritório instagramável com planta pendente e luminária de arquiteto não. Pode ser a mesa da cozinha, um canto do quarto, até a cama mesmo — desde que seja seu. Um lugar onde você se senta e o cérebro entende: "aqui a gente escreve".
Eu mesma escrevo em lugares diferentes dependendo do humor. Às vezes é na mesa, com café. Outras vezes é no sofa, de pernas cruzadas, porque o corpo pede outro tipo de presença. O importante é que você reconheça aquele espaço como o palco onde suas palavras vão aparecer.
Dica prática: deixe seus instrumentos de trabalho à mão. Caderno, caneta, laptop, fone de ouvido, o que você usa. Quanto menos barreiras entre você e a escrita, melhor. A inspiração não espera você procurar a caneta que funciona.
Estabeleça rituais, não regras
Ritual é diferente de disciplina militarizada. Ritual é acender uma vela, fazer um chá, colocar aquela playlist que te coloca no climinha. É avisar pro seu corpo: "vamo nessa, mana, chegou a hora".
Eu tenho alguns: às vezes é vestir aquela roupa específica (sim, roupa importa até pra escrever sozinha em casa, você acha que eu ia te dizer o contrário?). Outras vezes é ler poesia de alguém que admiro antes de começar, tipo um aquecimento vocal antes de cantar. Também gosto de botar um lo-fizinho no fone de ouvido.
O segredo é encontrar o que funciona pra você. Pode ser meditar cinco minutos. Pode ser dançar uma música. Pode ser olhar no espelho e dizer "hoje eu existo". O ritual te coloca no estado criativo. E aí você escreve.
Organize seu tempo como quem monta um look: camadas
Não dá pra escrever oito horas seguidas todo dia (ou dá, mas vai ficar exausta e talvez nem seja tão produtivo assim). Pensa em camadas: blocos de tempo dedicados a coisas diferentes.
Camada 1: O tempo sagrado da criação bruta
Esse é o momento de escrever sem filtro. Joga tudo pra fora. Não edita, não julga, não para pra pesquisar sinônimo. Pode ser meia hora, pode ser duas horas. Depende do seu ritmo.
Camada 2: O tempo da lapidação
Aqui você volta no que escreveu e começa a moldar. Corta, adiciona, muda de lugar. É o momento do olhar crítico (mas gentil, tá? Não precisa destruir tudo que você criou).
Camada 3: O tempo administrativo
Revisar, formatar, pensar onde vai publicar, responder e-mail, atualizar redes sociais. É chato? É. Mas também faz parte. Separa esse tempo pra não misturar com a criação pura.
Você não precisa fazer tudo no mesmo dia. Na verdade, é melhor não fazer. Alterna. Descansa. Respira.
Lide com as distrações (ou seja: com a vida)
Casa é cheia de armadilhas. A louça te olhando da pia. A cama sussurrando "deita aqui só um pouquinho". O celular com suas notificações sedutoras.
Minha estratégia: aceitar que a distração faz parte. Não adianta brigar com ela. Mas dá pra negociar.
Coloca o celular longe (tipo, em outro cômodo mesmo). Usa app bloqueador se precisar. Avisa quem mora contigo que você vai estar ocupada por X tempo. E se, mesmo assim, você se pegar lendo fofoca de famoso no meio do parágrafo? Tudo bem. Volta pro texto. Sem culpa. A culpa paralisa mais que a distração.
Tenha um sistema de captura de ideias
Ideias não avisam que vão chegar. Elas aparecem quando você está lavando o cabelo, esperando o ônibus, fazendo suas necessidades ou acordando de um sonho esquisito.
Eu anoto tudo. Tenho bloquinho na bolsa, post-it pela casa, notas no celular. Parece neura, mas quantas vezes você já teve uma ideia incrível e esqueceu completamente? Pois é.
Não precisa ser um sistema complexo. Só precisa funcionar. Pode ser áudio no WhatsApp enviado pra você mesma. Pode ser rabisco no guardanapo. Depois você organiza (ou não). O importante é não perder a faísca.
Respeite seus ciclos criativos
Tem dia que você está on fire, escrevendo três poemas antes do almoço. Tem dia que você olha pra página em branco e a página em branco ganha. E tá tudo bem.
Criatividade não é torneira. Não dá pra ligar e desligar no comando. Tem fluxo e refluxo. Tem dias de plantar e dias de colher. Se você se forçar nos dias de seca, vai só se frustrar.
Nesses dias, faça outra coisa que alimente sua escrita: leia, assista filme, saia pra caminhar, observe gente na rua. Tudo vira combustível depois. Confia.
Crie pequenas metas alcançáveis
"Vou escrever um livro" é lindo, mas abstrato. "Vou escrever 200 palavras hoje" é concreto. Você consegue visualizar, consegue fazer.
Não precisa ser meta de quantidade. Pode ser "vou revisar aquele poema" ou "vou escrever por 20 minutos sem parar". O importante é que seja algo que você consegue cumprir sem se matar. E aí, no final do dia, você olha e pensa: "ó, fiz alguma coisa". Isso alimenta a continuidade.
A escrita se constrói em pequenos gestos diários, não em maratonas heróicas uma vez por mês.
Proteja sua energia criativa
Você não precisa explicar pra ninguém por que está "só escrevendo". Escrever não é "não fazer nada". É trabalho. É arte. É necessidade.
Aprenda a dizer não. Não pra tudo que te tira do seu processo. Não pra quem não respeita seu tempo. Não pra você mesma quando tenta se convencer de que "talvez isso não seja importante".
É importante sim. Sua voz importa. Suas palavras importam. E você merece o tempo e o espaço pra deixá-las existir.
No final das contas, organização é sobre liberdade
Organizar não é aprisionar a criatividade num sistema rígido. É justamente o oposto: criar estrutura suficiente pra que você tenha liberdade de criar sem ansiedade, sem caos paralisante, sem achar que "não tem tempo".
É tipo escolher a roupa certa: quando você sabe o que veste, o que funciona pro seu corpo e pro seu humor, você não perde tempo se sentindo inadequada. Você só veste e sai.
Com a escrita é igual. Quando você tem seu cantinho, seu ritual, seu tempo organizado (mesmo que flexível), você não gasta energia se perguntando "como eu faço isso?". Você simplesmente faz.
Agora tira o sapato (ou bota o salto) e vai escrever.
Obrigadinha por ler meu texto 💕
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