O monstro que criei
Um poema sobre o Godzilla do meu sonho, que só estava me protegendo.
Antes de aceitar quem eu sou, eu tive um sonho que me marcou - isso já faz alguns anos. Eu estava numa festa linda, num apartamento de cobertura que nunca existiu, usando minisaia e salto alto (amooo!) - tudo impecável, tudo perfeito. Aí entrou o Godzilla e destruiu tudo.
Mas ele não era o vilão. Ele estava furioso, sim, mas não comigo. Ele estava me protegendo.
Acordei suada, sem entender. Entendi depois: meu próprio corpo me mandou um monstro pra derrubar os sonhos impossíveis. Pra me lembrar que existe um mundo lá fora que não é festa de cobertura, mas que aqui dentro, se eu não me aceitar completamente, vai ser ainda pior.
Abaixo eu deixei o poema que saiu desse sonho.
Um dia que sonhei com o Godzilla
Furioso, derrubava horizontes
Sem vilania
Só um bicho que protege seu lar
Ele destruiu meu sonho
Numa cobertura magnífica
A festa cheia de borrões
Minha roupa impecável
Minisaia, salto alto
Linda de morrer
Não foi por mal, hoje eu sei
Ele derrubou prédios inteiros
Moradas que só existiam na minha cabeça
Para me mostrar que fora dela
Nada seria tão fácil
Foi para me proteger
Não quero, mas preciso estar em alerta
Sempre
Para que meu único lar - o corpo
Viva o suficiente para eu estar lá
Um dia
De verdade
Com uma roupa impecável, ou não
Minisaia, ou não
Salto alto, ou não
Como eu quiser
Linda de viver
- O monstro que criei
O Godzilla do meu sonho me ensinou algo sobre ser mulher trans: a gente precisa ser monstro E princesa. Proteger E sonhar. Destruir o impossível pra construir o possível.
Você também tem um monstro guardião dentro de você?
Obrigadinha por ler meu poema 💕
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